sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

# Série: Teologia da Missão Integral - Um pouco de metodologia

por Victor Breno
Uma primeira consideração importante a se fazer, é que não há dentro da Teologia da Missão Integral um tratamento sistemático do método que ela utiliza. Isso não quer dizer que só seja possível chegar à conclusão a respeito de sua metodologia por intuição. Sua ordenação metodológica tem sido formulada pelos diversos articuladores, teólogos e congressos que tratam especificadamente dos textos. É da análise dos documentos originários do movimento que se pode esquematizar o modo pelo qual se estabelece o método.
O método teológico é importante principalmente por dois motivos: primeiro, é que está metodologia específica será o fator modelador do conteúdo diferenciado e específico para qualquer teologia, e constituinte do seu estatuto próprio. Isso quer dizer que para que a Missão Integral mostre seu caráter próprio de teologizar em relação àquilo que já foi pensado e definido em outro momento por outras teologias, ela precisa apresentar um modo diferente de organizar sua grade teológica. Segundo, porque é necessário dar resposta, ordenada e consistente, ao contexto e problemas sócio-históricos específicos de onde se quer desenvolver uma teologia.
A Teologia da Missão Integral parte da revisão histórica da prática missionária que lhe deu antecedência missiológica para a crítica, avaliação e reordenação do específico para o fazer teológico. Num processo de autonomia no discernir e produzir de um pensamento contextual a respeito de sua missão, a Missão Integral pretende romper com as marras metodológicas que lhe foram trazidas por meio dos projetos e teologias vindas do estrangeiro, e propõe uma forma mais local a luz das necessidades na qual a igreja é chamada a missionar.
            Assim, o modo metodológico da Teologia da Missão Integral encontra-se no surgimento de uma nova maneira de pensar a missão da igreja a luz dos problemas sócio-culturais do contexto e da crítica histórica ao movimento de missão. Ela vai sendo forjada assim, pela realidade na qual a igreja se encontra e suas demandas históricas, eclesiais e sociais.
A Missão Integral faz uso do círculo hermenêutico como processo dinâmico e de constante revisão crítica quanto àquilo que seja o conteúdo bíblico do evangelho e as demandas do contexto. É uma constante ida e vinda a partir das escrituras sagradas ao contexto e do contexto de volta as escrituras. Desse modo, a mensagem da teologia e da igreja nunca se encontra em dissonância com a realidade histórica da igreja. Onde quer que ela esteja, estará sempre apresentando uma mensagem e atuação compromissada e relevante.
É utilizando uma hermenêutica circular, inter-relacionando constantemente o contexto e a Palavra de Deus, que a igreja pode se mostrar efetivamente engajada em oferecer respostas as necessidade do povo e da sociedade e apresentar a mensagem salvadora e libertadora de Cristo ao mundo.
Como observamos, a Teologia da Missão Integral constitui-se de um modo de teologizar que leva a sério os princípios de contextualização, integralidade e utiliza o Reino de Deus como chave hermenêutica na interpretação do seu construto teórico. Assim sendo, ela se mostra com vitalidade e vigência para ser uma nova referência nos conceitos e praticas missionárias para a igreja local.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

# Série: Teologia da Missão Integral - Um pouco de História


por Victor Breno


Por volta da década de 60 e 70, os evangélicos de todo o mundo percebendo a descristianização da sociedade ocidental e a grande quantidade da massa populacional do mundo que ainda não tinha conhecimento do Evangelho, resolveram reunir-se para juntos levantarem reflexões e estratégias sobre a evangelização mundial. A partir destas percepções, diversos congressos de pequeno porte eram realizados com esse fim. Porém, vendo a necessidade de uma maior participação dos cristãos espalhados pelo mundo e de um maior diálogo e engajamento pelas igrejas de diversos lugares do globo, organizou-se dos dias 16 a 25 de julho do ano de 1974, na cidade de Lausanne, Suíça, o primeiro Congresso Mundial de Evangelização. 
O Congresso realizado em Lausanne foi patrocinado pelo Ministério Billy Graham com uma convocação bastante conservadora. A evangelização programada que se queria propor aos participantes era de vertente conversionista, que gerava uma descontinuidade entre indivíduo e sociedade. Esse conceito estava estampado nas inúmeras agencias de missão norte americano de corte fundamentalista, subsidiários da realização do evento.
Um grande debate durante o congresso ocorreu em torno da extensão da missão. Houve ali uma pressão no sentido de se identificar a missão apenas com a evangelização, de se ignorar qualquer consideração a respeito do papel que o contexto cultural e os condicionamentos ideológicos tinham sobre a teologia e a prática missionária, e de dar prioridades às vozes dos teólogos do primeiro mundo nas conclusões.
 Todavia, houve uma guinada na matriz teológica orientadora do congresso. Com o apoio do Dr. John Stott, um dos líderes do encontro, representantes da América Latina puderam expressar suas idéias. A participação de alguns teólogos latino-americanos foi fundamental nesse sentido. A presença latino-americana no congresso de Lausanne colocou em pauta a necessidade de se refletir sobre as estruturas sociais e os contextos culturais dos povos onde a missão se realiza.
Do evento, foi produzido um documento chamado de Pacto de Lausanne, que se firmou como o marco da Missão Integral. Nele procurou-se estabelecer referenciais teológicos que favorecessem um maior engajamento em projetos locais e em iniciativas missionárias. Foi a partir do Pacto de Lausanne que se consolidou o anseio de uma geração de produzir uma missão integral. O Pacto de Lausanne representou a possibilidade concreta de renovar os modelos missionários pelas igrejas locais para um maior engajamento na sociedade nas quais estavam inseridas.
Com o lema ‘’o evangelho todo, para todo o homem, pelo mundo todo’’, a Missão Integral a luz do Pacto de Lausanne começa a representar um novo paradigma nos conceitos missionais nas quais as igrejas locais e toda reflexão teológica deveriam rever seus conceitos e práticas missionárias para uma percepção mais Bíblica e contextual do Evangelho do que tradicionalmente se tinha concebido.
O Congresso Mundial de Evangelização em Lausanne, Suíça, representou muito mais que apenas mais um congresso sobre evangelização. Ela corresponde à realização das expectativas dos cristãos latino americanos na formulação de uma teologia própria que lhe dessem fundamentação e discernimento no cumprimento da sua vocação missionária em seu contexto específico.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

# Série: Teologia da Missão Integral - O por que deste tema?


por Victor Breno
Qual o motivo de se falar sobre missão em nossos dias? Por que ainda pensar sobre o tema já que minha igreja local possui uma “consciência missionária”? É importante mesmo refletir sobre o assunto? Como essa visão afeta o modo como entendemos e fazemos missão? Inúmeras são as perguntas que surgem quando nos propomos a uma reflexão acerca daquilo que é para nós aparentemente óbvio e um tanto quanto conhecido. O tema da missão é um destes casos.
Acreditamos por vezes que o conteúdo da fé que recebemos de nossas tradições religiosas e lideranças eclesiásticas já comporta em si um tipo de validade intrínseca que não precisam ser pensadas. Deste raciocínio é que recorrentemente surgem equívocos quanto a nossas crenças e práticas tanto a nível individual, quanto comunitário. Por isso, torna-se fundamental, para que a igreja seja constantemente uma realidade significativa dentro do contexto na qual está inserida, ponderar criticamente a respeito de si mesma.
Atualmente, um grupo cada vez maior de pastores, missiólogos e teólogos têm evidenciado a importância missiológica de um novo paradigma para a vida e missão da igreja. Estes têm exigido uma redefinição da natureza da Igreja, de sua missão, sua razão de ser, sua relação com o reino de Deus e seu chamado no mundo.
O que torna nova a discussão e revisitação do termo ‘’missão’’ nos nossos dias, é que ela está sendo atacada não só a partir de fora, mas também a partir de dentro de suas próprias fileiras. A crítica do tema nos dias atuais se dá pelo fato de que se quer, a partir da revelação total bíblica e do contexto no qual se quer anunciar o evangelho, desde a congregação local, teologizar uma compreensão e ação de missão que possa abarcar todo o conselho de Deus e alcançar todas as dimensões da existência humana com a mensagem da cruz.
A compreensão tradicional da missão, da qual a maioria de nossas igrejas locais recebeu por herança protestante, tomou forma no movimento missionário moderno especialmente a partir do final do século XVIII. Essa compreensão concebia a missão essencialmente em termos de transposição geográfica, ou seja, entendia a missão como propagação da fé, expansão do reinado de Deus, conversão dos pagãos e fundação de novas igrejas.
Percebe-se, porém, que o paradigma missiológico que reivindicou as empreitadas missionárias das igrejas locais nestes últimos tempos, tem apresentado uma compreensão parcial do ensinamento bíblico a respeito da missão, também criado dicotomias prejudiciais as congregações e, conseqüentemente, impedido uma protagonização da igreja local de forma mais efetiva e integral na sociedade.
Em virtude desses problemas, propomos a Teologia da Missão Integral como uma nova compreensão para os moldes missiológicos objetivando um entendimento e ação integral para a Igreja Local. Quer-se, desse modo, romper com as inquietações do paradigma tradicional e tomar por bandeira o lema de levar o evangelho todo, para todo o homem, em todo o mundo a partir da congregação local.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

# Série: Teologia da Missão Integral - Apresentação

por Victor Breno

Este é o primeiro texto de um conjunto de reflexões (originalmente um seminário para igrejas) acerca do tema da Teologia da Missão Integral (TMI). Nosso objetivo aqui é abordar sucintamente o que nos parece ser o conteúdo elementar pensamento teológico e proposta missiológica da TMI. Direcionamos os escritos para aqueles que nunca tiveram contato com o assunto, esperando que possam ser despertados para tal. À aqueles que já o conhecem, uma oportunidade a mais de revisar informações.
Acreditamos ser essencial na realidade eclesiástica contemporânea e no contexto da reflexão teológica nacional, desenvolver uma produção teórica, e decorrentemente prática, consonantes tanto com as prerrogativas do evangelho integral, quanto das demandas que o mundo atual nos apresenta. Entendemos ser a Teologia da Missão Integral este esforço e exercício da recuperação da dimensão holística da missão e da tomada de responsabilidade diante da transformação das nossas sociedades pela mensagem do evangelho.
Apesar das inúmeras publicações a respeito do tema e da publicidade ministerial feita sobre esta perspectiva, parece haver um grande mau-entendimento acerca do que seja de fato TMI. Por isso, julgamos importante apresentar uma síntese da TMI recorrendo às literaturas especializadas e aos principais articuladores desta teologia.
Para os que querem introduzir-se no tema, oferecemos uma pequena bibliografia:

1)     BOSCH, David. Missão transformadora: mudança de paradigmas na teologia da missão. São Leopoldo: Sinodal, 2002.
2)         CARRIKER, Timóteo. Missão Integral: uma teologia bíblica. São Paulo: SEPAL, 1992.
3)      GONDIM, Ricardo. Missão integral: em busca de uma identidade evangélica. São Paulo: Fonte Editorial, 2010.
4)      PADILLA, C. René. O que é missão integral?. Viçosa, MG: Ultimato, 2009.
_______Missão integral: ensaios sobre o reino e a Igreja. São Paulo: Temática Publicações, 1992.
5)      SANCHES, Regina Fernandes. Teologia da Missão Integral: história e método da teologia evangélica latino-americana. São Paulo: Reflexão, 2009.
6)      STEUERNAGEL, Valdir Raul (Ed.). A serviço do reino: um compêndio sobre a missão integral da igreja. Belo Horizonte: Missão Editora, 1992.
7)      STOTT, John R. W. A missão cristã no mundo. São Paulo: Editora Candeia, 2008.
8)      VV. AA. Pacto de Lausanne: comentado por John Stott. 2.ed. São Paulo: ABU & Visão Mundial, 2003.

# Nota de Esclarecimento

Olá pessoal!
este post é uma nota explicativa aos nossos leitores.
Devido aos compromissos acadêmicos e atividades disciplinares próprios do final do semestre estudantil, tivemos que nos afastar um pouco nestes últimos tempos da publicação de textos aqui no blog.
Agora, em relativo período de férias, queremos dar continuidade a publicação de reflexões e atualização do conteúdo deste espaço.
caso tenha alguma sugestão, crítica ou contribuição para o blog, favor entrar em contato pelo email: blogpensees@gmail.com.
Agradecemos a todos pela conpreensão e um abraço a todos!

"A sabedoria começa na reflexão" [Sócrates]